CONTOS

O  ITALIANO.

Certa vez, eu estava trabalhando na implantação dos primeiros quiosques da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Parque dos Patins, onde foi o antigo  Tivoly Park, no quiosque do italiano próximo do árabe, hoje é como um grande restaurante e se chama “mediterrâneo”. (Vou cobrar “merchandising”! Rsrs) E enquanto montávamos os armários, os banheiros, os balcões e partes da estrutura, do quiosque, conversávamos sobre tudo; e a pesar do sotaque bem carregado do Cliente, que às vezes misturava: Espanhol, alemão, italiano e português,  eu me esforçava para conseguir compreender, afim de enriquecer a minha cultura, uma vez que ainda nunca tinha saído do Brasil; Mas uma determinada hora quando falávamos sobre conhecimento empírico, conhecimento científico, conhecimento filosófico e conhecimento teológico, O gringo se aborreceu; cresceu a veia do pescoço e gritando me disse:

– Você é um bosta!

– Tudo que você pensa, tudo que você fala está errado. Se   assim não fosse, era eu quem trabalhava pra você, e não você  para mim! Do que adianta falar bonito, saber de tudo e ser um “duro”? Dizia ele:

– Eu só tive o ensino fundamental, e olha quanto dinheiro eu tenho!

– Cala a boca e termina esta P… logo!

Na mesma hora, me deu um nó na garganta e chorei em silêncio; até pensei em abandonar o trabalho, mas o meu dinheiro estava  nas mãos dele; e eu precisava muito daquele dinheiro.

Revendo os meus conceitos, naquele mesmo ano eu tinha comprado um carro zero, que à vista custava treze mil e oitocentos reais, e eu estava pagando quase trinta mil a prazo.

Como dar uma resposta a altura àquele “gringo safado” se eu estava pendurado nos cartões de crédito, devia o empréstimo, a prestação do carro e ainda sustentava um montão de parasitas?

– Como?

– Diga-me como?

Ao longo do sofrimento da prestação do carro, amadureci o seguinte conceito: Eu não preciso de cartão de crédito, não preciso de prestação, nem de empréstimo bancário, e muito menos de sustentar parasitas; porque o segredo da prosperidade é gastar menos do que se ganha. Eu preciso é da minha liberdade para trabalhar feliz, contar as minhas histórias e ter o direito de ir e vir sem ninguém tirar onda com a minha cara.

Obrigado italiano, você salvou a minha vida! Hoje eu só compro à vista e sou próspero.

Wagnon.

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ETIQUETA OU PRECONCEITO?

Um dia, um pedreiro recém-chegado de Minas Gerais, veio à minha marcenaria pedir que o indicasse para os meus clientes; como eu não o conhecia, propus-lhe o seguinte:  O senhor trabalha comigo por uns tempos, de ajudante de marceneiro, e quando formos  montar algum móvel eu o apresento como pedreiro para os meus clientes; Fechado?

– Sim, fechado! Posso começar agora?

Claro que sim (eu disse).

E em meio aos nossos causos lá da terrinha, nós nos tornamos grandes amigos.

Na semana seguinte fomos montar um armário de banheiro, em Copacabana, e conhecendo os costumes do “Mineiro do interior,” passei-lhe as seguintes instruções:

– Olha amigo! Aqui na cidade do Rio de Janeiro, principalmente nos bairros da zona sul, os padrões de comportamento para os prestadores de serviço são bem diferentes dos da sua terra.

– Como diferentes?

Aqui tem a “etiqueta social”

– Traduz este negócio aí!

Cada macaco no seu galho; entende?

– Ah sim, agora entendi; mas continue, por favor!

É tipo assim:

1 – Imposte a voz ao falar com o porteiro.

2 – Diga seu nome, o apartamento aonde você vai, a firma para a qual você trabalha e o que você vai fazer no apartamento.

3 – A nossa entrada é a dos fundos; o nosso elevador é o de serviço; e se tiver algum cachorro esperando  para subir, dê-lhe a preferência.

4 – No elevador, fique em posição de sentido; nos corredores do prédio, não fale alto; não fume e não encoste a mão em nada. Você está sendo filmado!

5 – Chegando ao apartamento, ajeite-se, antes de tocar a campainha e faça uma cara de bom moço.

6 – Se a empregada abrir a porta, não a olhe com cara de tarado.

7- Quando a madame vier falar com você, dê aquele bom dia de japonês, mas só a cumprimente se ela estender a mão.(Sabe lá o que você coçou com essa mão suja)!

8 – Na casa da “madame”, não descanse o pé na parede, não escarre no chão e nem tire meleca do nariz; e se der dor de barriga, faça só o número um, no banheiro da empregada. O número dois, faça na sua casa.

8 – Jamais coloque a bunda no sofá da “madame”! Na cama, nem pense!!!!!!!!!

9 – Não recuse o café da “madame”; mesmo com adoçante!

10 – Ouça com atenção as histórias da “madame”, mas não conte suas histórias pra ela. “Madame” não quer saber das histórias de peão.

11 – Finalmente, preste toda atenção: se a “madame” estiver resfriada, espirrando ou tossindo, não queira puxar-lhe o saco dizendo: Ontem mesmo eu estava com esta tosse! Não faça isto! Lembre-se de que a tosse da “madame” é tosse de rico, e a sua é tosse de pobre.

– Pronto, chegamos! O prédio é este, vamos lá!

O excesso de informações o deixou totalmente confuso e travado. Quando entramos no corredor do prédio ele andava esquisito, parecendo pessoa que fez caca na calça larga.

Quando toquei a campainha fui atendido logo pela “madame”, que nos abriu um sorriso, pulou no meu pescoço e me recebeu com abraços e beijos. Seu marido que estava no sofá lendo jornal, fez questão de se levantar e me dar um abraço apertado daqueles que levanta a pessoa do chão sabe?

O pedreiro só ficou olhando aquela cena.

Pensei comigo: Puta merda! Casal desgraçado! Já quebrou o protocolo! E para piorar a minha situação, a “madame” disse: vou fazer um cafezinho bem gostoso pra gente! A essas alturas dos acontecimentos, eu já tinha perdido o controle da situação e parecia estar com uma etiqueta de preconceituoso colada na testa. Foi quando o cliente, que tinha voltado a ler o jornal no sofá, levantou os olhos, por cima dos óculos, fundo de garrafa e perguntou ao pedreiro: Qual o seu nome?

– Roquelino!

O senhor é de onde?

– De Minas Gerais!

Ah! Eu também nasci em Minas! (Disse o cliente). Nesse momento a madame trouxe o café, e Roquelino se esqueceu das instruções, sentou-se no sofá, ao lado do cliente, e falava e falava e falava… Até espumar o canto da boca: trocava altas idéias, na maior intimidade com o cliente, e tomava o café como se estivesse na marcenaria do wagnon (rsrsrs ê, ê sô!). Eu tentava com os olhos dizer a ele: Levanta do sofá da “madame”, seu miserável! Mas ele nem me olhava. Até que tive uma idéia: Entrei no banheiro e gritei de lá, segura aqui, Roquelino! Quando ele entrou no banheiro, eu, muito invocado, disse: Seu filho de uma ronca e fuça!  Não lhe falei para ficar longe do sofá da madame?

Agora vamos trabalhar! Você já falou de mais hoje!

Ele me respondeu: Uai sô! Eu só tava tendo um dedo de prosa com o meu conterrâneo!

 

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A HISTÓRIA DO ADAUTO.

Na época em que vim do interior para tentar a vida na capital:RJ, meu vizinho e amigo de infância: “O ADAUTO”,  me acompanhou nessa caminhada;  e diante das dificuldades, não tivemos outra alternativa se não, cada um morar em uma favela. Poucos meses depois, quando Juntos conseguimos trabalho em uma obra, o Adauto me aparece furioso, “P. da vida”,  dizendo:  Estou arrasado!

– Mas o que houve, Adauto?

-Mataram o meu maior  amigo, fizeram uma grande covardia com ele, e isto não se faz nem com um bicho; mas  isto não vai ficar assim, vai ter troco. Ora se vai!  Então eu disse: Pelo que vejo, você se integrou rapidamente à comunidade heim, Adauto!  Perguntei: Este seu “amigo” tinha algum problema com alguém?

–  Que problema que nada, rapaz! Ele nunca teve problema com ninguém. Ele só não podia ficar nervoso!

Mas, ele… Trabalhava?

– Quem trabalha neste país, você não está vendo a taxa de desemprego?

Então ele… Roubava?

– Só roubava de quem tem! (“quem tinha”).

Ele… Matava?

– Só matava “vacilão”!

Então eu disse: Adauto, Cuidado com suas amizades!

 

 

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O AMIGO DA ONÇA

Quem de nós nunca teve um “amigo da onça”: aquela pessoa que, quando precisa de você puxa seu saco, faz altas declarações de amizade; fica no seu pé, feito um carrapato, tem ciúmes das suas amizades, abre a sua geladeira, mexe nas suas panelas, quer usar suas roupas e controlar sua vida? E quando você diz um “não”, elas falam mal de você pra todos os seus amigos e lhe aprontam coisas que nem inimigos fazem?

Um dia meu amigo da onça chegou. Já entrou querendo chamar minha atenção; eu, que estava super concentrado em uma tarefa do meu trabalho, apenas lhe dei bom dia, mas sem tirar os olhos do que estava fazendo, mas ele fez tanto estardalhaço,  que quando levante a cabeça, já lhe contei uma história feita naquele momento:

Certa vez um homem, caminhando por um parque da cidade, encontrou um cachorro magro, jogado perto de uma lixeira, em suas últimas horas de vida. Então o coração daquele homem moveu-se de íntima compaixão, a ponto de interromper sua caminhada e pegar aquele animal doente, sujo, asqueroso e trazer para a sua casa; dar-lhe um banho, limpar suas feridas e oferecer-lhe um saboroso prato de comida. Mas ao perceber a inércia do animal, diante do alimento, aquele homem iniciou uma investigação mais detalhada pelo corpo do animal para saber por que ele rejeitara a comida. Abrindo a boca do bichinho, notou que todos os seus dentes lhe fora arrancados; então imediatamente, levou-o a um veterinário, que o alimentou por uma mamadeira e sugeriu que novos dentes lhe fossem implantados, embora isto custasse todas as economias do seu cuidador. Mas sua compaixão era tão grande que ele decidiu pelo melhor para o bicho.

Dias depois, quando o cuidador foi buscar, na clínica, seu novo animal de estimação, sua expectativa era tal, que nem o deixou dormir na noite anterior, e quando recebeu nos braços, o seu paciente, com todos os dentes novinhos, quis fazer-lhe uma surpresa: Passou no melhor açougue da região, comprou um kg de filet mignon, e ao chegar à sua casa pegou um prato de porcelana, de sua coleção, colocou a carne e deu para o animal, num cantinho da varanda, e ficou contemplando aquela cena, do cachorro devorando aquele alimento. Mas quando ele foi pegar o prato para colocar mais um pouco de carne, o cachorro avançou em sua mão e arrancou-lhe dois dedos. Nesse momento da história, meu “amigo” que até então ouvia a história calado, deu um soco na mesa e gritou dizendo:

– Esse cachorro “do caralho” tem mais é que morrer!!!!!!!!

Eu me levantei, botei o dedo na fuça dele e disse:

– Você é este cachorro, seu amigo da onça!

 

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